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O Fim do Capitalismo Americano?
Mark Twain, Lake Wobegon e a Crise Atual

Mark Blyth

The Global Financial System

ÍNDICE
Sobre Esta Edição
O Fim do Capitalismo Americano? Mark Twain, Lake Wobegon e a Crise Atual
Os Estertores da Dívida
A Globalização e o Sistema Financeiro dos EUA
Box: Avanços na Economia
Cronologia das Bolhas de Ativos Financeiros
Regulamentação Revisitada: A Teoria do Equilíbrio de Mercado está Errada
Problemas Financeiros Globais: Causas, Curas, Respostas
O Sistema Financeiro Global em Transformação
Glossário
Recursos Adicionais
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O presidente Barack Obama discursa na Cúpula do G-20 em Londres, em 2 de abril de 2009 (© AP Images)

Embora o tipo de crise financeira que enfrentamos hoje não tenha precedentes, o mesmo não se pode dizer das crises do capitalismo. Elas são comuns.

Mark Blyth é professor de Economia Política Internacional da Universidade de Brown. É autor do livro Great Transformations: Economic Ideas and Political Change in the Twentieth Century [Grandes Transformações: Ideias Econômicas e Mudanças Políticas no Século 20].

Se você lançar mão do que os estatísticos chamam de série temporal de retornos do setor bancário dos EUA de 1947 a 2008, é possível traçar, com alguma confiança, a taxa média de rentabilidade do setor ao longo do tempo, os picos (dos anos 1990 a meados dos anos 2000), as depressões (de 1947 a 1967) e o crescimento acentuado da rentabilidade do setor nos últimos dez anos. Caso sejam adicionados os dados do período entre agosto de 2008 e abril de 2009, a série inteira, da mesma forma que o sistema bancário descrito por ela, simplesmente vai pelos ares. Médias, índices, variações e coisas semelhantes se diluem, tal a gravidade dos recentes acontecimentos. De fato, quando o ex-presidente do Federal Reserve dos EUA, Alan Greenspan, admite que o seu entendimento dos processos de mercado havia sido extremamente falho, e quando o atual presidente, Ben Bernanke, afirma que enfrentamos a maior crise desde a Grande Depressão, deveríamos, provavelmente, encará-la com seriedade.

E ela é séria. Com uma enorme redução de US$ 1,3 trilhão em ativos e US$ 3,6 trilhões em passivos, junto com a perda de metade do valor do mercado acionário, o sistema financeiro dos EUA se encontra ou sob severo estresse, insolvente, ou, segundo alguns, em situação ainda pior, no final de suas forças. O fim do capitalismo já foi anunciado muitas vezes antes. E, no entanto, para parafrasear o escritor e humorista Mark Twain, as notícias de sua morte têm sido grandemente exageradas.

O capitalismo americano que vai emergir dessa crise será diferente da versão altamente “financeirizada”, dirigida pelo consumo e marcada pelos desequilíbrios comerciais desenvolvidos nas duas últimas décadas. A sua mudança pode ser comprovada na medida em que Wall Street propriamente dita já não existe mais. Mas o que as pessoas tendem a esquecer é que já passamos por isso. Embora o tipo de crise financeira que enfrentamos hoje não tenha precedentes, o mesmo não se pode dizer das crises do capitalismo: elas são comuns. É que essa em especial atingiu mais os Estados Unidos do que qualquer outra região do mundo. Mas já passamos por isso antes e sobrevivemos, até mesmo porque o presente não é uma cópia do passado. Trazer de volta essas lembranças modera a expectativa de que o capitalismo dos EUA tem seguido seu curso natural.

O problema de Lake Wobegon (onde todos estão acima da média)

Embora certamente existam vários plausíveis candidatos a culpados pela crise — que vão da cultura dos bônus nos bancos à poupança chinesa e à parcimônia alemã —, centrar-se no presente imediato pode esconder uma série de causas mais profundas. Analisar a crise em sua perspectiva correta requer que voltemos quase 30 anos no tempo com o inesperado casamento da liquidez ilimitada com classes de ativos limitados. Seis processos conjuntos nos levaram ao ponto em que nos encontramos atualmente.


O presidente do Federal Reserve, Ben Bernanke, depõe no Congresso americano (© AP Images)

Primeiro, no início dos anos 1980, os principais centros financeiros mundiais desregulamentaram seus mercados internos de crédito e abriram suas contas financeiras. Essa “globalização das finanças” resultou em um crescimento espetacular da liquidez disponível diante do entrelaçamento de mercados anteriormente isolados. Segundo, essa liquidez recebeu um impulso gigantesco com o desenvolvimento de novos instrumentos financeiros, especialmente técnicas de securitização e o uso cada vez maior de derivativos de crédito. Terceiro, dado esse crescimento da liquidez global, as taxas de juros de curto e longo prazo começaram a cair de forma abrupta. Em 1991 as taxas de fundos federais e prime (e, desta maneira, as taxas de juros globais) iniciaram sua longa queda da casa dos dois dígitos para baixas históricas.

Quarto, diante dessas mudanças, o setor bancário comercial dessas economias agora dirigidas pelas finanças tornaram-se cada vez mais concentrados. O crédito bancário disponível subiu vertiginosamente, ao mesmo tempo que a privatização de antigas responsabilidades do Estado, em especial as pensões, estimulou o crescimento de grandes investidores institucionais não bancários, todos em busca de retornos “acima da média”, já que seus empregos dependiam da superação de alguma média dos indicadores de desempenho, normalmente o retorno anual do índice Standard & Poor’s 500 ou o índice de desempenho do seu setor.

Quinto, o déficit da conta corrente dos EUA aumentou em proporções historicamente sem precedentes em relação ao produto interno bruto. Na verdade, os Estados Unidos tomaram emprestado de 3% a 6% do PIB a cada ano por um período de mais de 20 anos, e a realização de empréstimos a taxas de juros tão baixas acabou criando uma sensação de dinheiro gratuito dadas as taxas de crescimento às quais estávamos acostumados.

Sexto, e talvez o que tenha facilitado o caminho para tudo o que foi descrito acima, foi a mudança em uma ideologia profundamente arraigada ocorrida nos Estados Unidos entre 1970 e 2000. Isto é, os mercados passaram a ser vistos por políticos, analistas e o público em geral como maravilhas de autorregulação, capazes de produzir retornos cada vez mais elevados, livres de risco, bastando para isso invalidar as regulamentações ineficientes e cheias de falhas do Estado, o que foi conseguido por meio de favores prestados a políticos de ambos os partidos. Junte tudo isso, e o resultado é um setor financeiro que depende continuamente de retornos acima da média, ao mesmo tempo que se torna parte cada vez maior e mais importante do produto interno bruto dos EUA.



Navios porta-contêineres com importações de países
asiáticos são descarregados nas docas de Nova Jersey
(© AP Images)

Os limites de Lake Wobegon

O problema em se perseguir uma média móvel é que ela mostra uma tendência de alta contínua. Aqui nos deparamos com um problema de classes de ativos: o número limitado de categorias de ativos a partir do qual os investidores podem buscar retornos acima da média. Apenas algumas dessas classes estão disponíveis: participações acionárias (ações), dinheiro vivo (mercado monetário) e renda fixa (títulos), aos quais se pode adicionar imóveis e commodities. Se participações acionárias, títulos e instrumentos do mercado monetário forem considerados investimentos recíprocos dentro de uma classe, então os mercados acionários, relativamente subvalorizados no início dos anos 1990, tornam-se o lugar óbvio para se procurar tais retornos. O enorme volume de liquidez em sua busca por retornos acima da média primeiro inundou os mercados de ações dos EUA e depois disso alcançou rapidamente os mercados acionários globais entre meados e final dos anos 1990.

Depois do estouro dessa bolha específica, de forma mais espetacular no Leste Asiático, nem os títulos, nem a renda fixa, por si sós, forneceriam os retornos acima da média que os mercados — e todos nós que dependíamos deles — agora esperavam. A próxima parada dos investidores foi, portanto, a malfadada bolha ponto-com, e depois disso a próxima classe mais óbvia de ativos, os imóveis — daí, o boom imobiliário global, que começou exatamente quando a bolha ponto-com estourou no final dos anos 1990. Em 2008 essa bolha imobiliária havia ficado sem (bons) tomadores de empréstimos, em parte devido à elevação das taxas de juros pelo presidente do Federal Reserve, Alan Greenspan, em meados dos anos 2000. O resultado da procura de um novo retorno foi que a classe remanescente de ativos, as commodities, tornou-se a próxima bolha, com o petróleo quadruplicando de preço e os alimentos básicos aumentando de 40% a 70% em pouco mais de um ano. Entretanto, com exceção do petróleo, esses mercados eram pequenos demais para sustentar tais volumes de liquidez, e essas bolhas estouraram rapidamente. O colapso do mercado de commodities combinado com as perdas do setor de subprime do mercado de derivativos hipotecários desencadeou a crise atual.

Embora seja chamada de “crise do subprime”, ela talvez seja mais bem descrita como o gatilho do subprime para uma crise sistêmica causada quando todos esses fatores se uniram por intermédio de práticas de gestão de risco dos atores financeiros. Embora os bancos e outras instituições financeiras tenham sofisticado os modelos de gestão de seus vários riscos (crédito, liquidez, etc.), essas mesmas tecnologias podem criar instabilidades nos mercados tanto ao impedir que seus usuários enxerguem os chamados “riscos de cauda”, o que acaba por representar uma via de risco para as carteiras comuns nas classes de ativos, já que todos usam o mesmo caminho, ou ao vincular os ativos na busca por liquidez, à medida que as posições vão sendo apresentadas durante a desalavancagem dos bancos. Assim, o que é racional para um banco pode criar risco sistêmico para todos os outros à medida que as posições dos ativos se tornam correlacionadas em série nos aspectos positivo e negativo da bolha.

Assim que todo o sistema bancário ficou cheio de derivativos hipotecários e swaps de inadimplência de crédito, a crise só estava esperando para acontecer. Ela se manifestou quando as perdas de vários grandes bancos americanos desencadearam a queda do Lehman Brothers, que por sua vez provocou prejuízos enormes nos mercados ligados de forma sistêmica, em especial no mercado de swaps de inadimplência de crédito. A liquidez secou. Era o início da crise. Como vai ser o seu desenrolar a partir deste ponto, qualquer um pode realmente conjeturar, mas ela marca o fim do capitalismo americano? Há inúmeras razões para crer que esse não é o caso, e a injunção de Mark Twain ainda está de pé.



Na chamada “sexta-feira negra” em 1929, investidores observam o quadro-negro, enquanto
os valores das ações despencam
(© Hulton-Deutsch Collection/CORBIS)

Mark Twain e as três razões para manter a esperança

Vale a pena observar que, embora o presidente do Federal Reserve, Ben Bernanke, tenha afirmado que enfrentávamos a maior crise desde a Grande Depressão, ele não disse que enfrentamos uma crise tão grande como aquela. Entre 20% e 40% de desemprego, derrocada do comércio mundial, desvalorizações competitivas desastrosas da moeda, níveis tarifários absurdos e o colapso da democracia foram a realidade da Grande Depressão em todo o mundo. Enfrentamos tempos desafiadores na atual crise, e sempre existe a possibilidade de as coisas se tornarem ainda piores, mas elas não estão tão ruins assim em nenhum lugar. Isso me dá razão para ser otimista com relação à observação de Mark Twain, principalmente porque há uma imensa diferença entre o mundo dos anos 1930 e o mundo no qual vivemos atualmente. A flecha do tempo assinala sempre “o viver para frente”, de modo que as condições do presente nunca são as mesmas do passado. Três dessas condições que dizem respeito aos dias de hoje e que são diferentes daquelas dos anos 1930 nos dão a oportunidade de não repetir os erros do passado.

A primeira lição aprendida é que as lições podem ser aprendidas. Não estamos fadados a repetir a década de 1930 exatamente porque podemos refletir sobre como aqueles anos foram penosos e como as ações empreendidas para nos proteger individualmente nesse período não contribuíram de forma alguma para o bem-estar coletivo. Essas lições aprendidas fizeram com que nações de todo o mundo introduzissem estabilizadores automáticos em suas economias, a fim de evitar o colapso do consumo que levaria a reivindicações nacionalistas e protecionistas no caso de uma crise externa, e confiassem na cooperação multilateral para prevenir erros óbvios de política. Pode-se argumentar legitimamente que países diferentes aprendem lições diferentes. Portanto, os alemães estão preocupados com as consequências inflacionárias dos gastos que os EUA querem que os europeus realizem para evitar o desemprego que os americanos temem. Mas a finalidade de reuniões como a do G-20 é discutir essas diferenças e encontrar espaço para acordos sobre políticas. Trata-se de uma questão de equilíbrio entre estímulo e regulamentação, e ambos os lados do Atlântico sabem que precisam encontrar pontos em comum para poder avançar.

Minha segunda razão para ser otimista deriva do novo MAD (destruição mútua assegurada).  Durante a Guerra Fria, falamos da “destruição mútua assegurada”, na qual os Estados Unidos e a União Soviética possuíam tantas armas nucleares que um lado não podia destruir o outro sem causar a própria destruição. Troque “mútua” por “monetária” e você obtém o novo MAD — “destruição monetária assegurada” — que existe entre a China e os Estados Unidos. Uma consequência da financeirização da economia dos EUA foi que conseguimos fazer com que a China trocasse bens reais por papel e uma terrível taxa de retorno para segurar o papel por mais de 20 anos, no decorrer dos quais os chineses (e outras economias do Leste Asiático) construíram um comércio extraordinariamente grande e superávits de conta corrente. De forma essencial, sem ninguém jamais fazer formalmente tal aposta, os Estados Unidos fizeram uma aposta de mão única de que nossa economia podia ser operada com base nas finanças, em uma divisão global de trabalho, na qual a China produzia os bens em troca de dólares que nos seriam emprestados de volta, de modo que pudéssemos consumir seus produtos. Esse sistema também acabou. A China precisa consumir mais, e os Estados Unidos precisam produzir algo além de derivativos hipotecários, e ambos os lados sabem disso. Será penoso chegar até lá, mas a alternativa, a chamada destruição monetária assegurada, na qual o dólar é vendido abaixo do seu valor e os câmbios entram em colapso, é outra política individualmente racional e coletivamente desastrosa, que todas as partes, dessa vez, sabem como evitar.

Terceiro, ocorreu o fracasso de outra ideologia. A crença de que os mercados são inevitavelmente bons e autorreguladores, enquanto os Estados são sempre ruins e mais parecem monstruosidades com excesso de regulamentação, é um pesadelo recorrente na história do capitalismo. Os anos 1930 nos ensinaram que essa crença nos mercados e na autorregulação era uma falácia e nos deu uma era keynesiana de finanças reguladas e Estados de bem-estar social. A década de 1970, outro período de crise do século 20, nos ensinou que Keynes estava errado e que os mercados abertos e as finanças desreguladas eram o caminho a seguir. Esse sistema, que pode ser chamado de globalização neoliberal, foi o sistema que explodiu. Deste modo, qual será a lição que temos de aprender desta vez?

A lição que deve ser aprendida da crise em toda sua extensão é que os mercados e os Estados sempre se sobrepõem mutuamente em toda parte de forma constitutiva, antagônica e produtiva. O capitalismo como sistema floresce melhor em um ambiente de regulação discreta dos Estados, e o capitalismo americano não é diferente. O equilíbrio exato entre o Estado e o mercado é uma questão política a ser decidida pelas diferentes nações. Mas a necessidade de haver um equilíbrio é algo que a maioria dos países, até mesmo os Estados Unidos, aceita atualmente.

Assim, a injunção de Mark Twain continua de pé. As notícias sobre a morte do capitalismo dos EUA são exageradas e provavelmente continuarão assim até que estejamos dispostos a aprender que as lições do passado podem de fato ser aprendidas.

The Global Financial System

As opiniões expressas neste artigo não refletem necessariamente a posição nem as políticas do governo dos EUA.