A Globalização e o Sistema Financeiro dos EUACharles R. Geisst
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Nas décadas após a Segunda Guerra Mundial, a ideia da globalização tornou-se cada vez mais popular quando se descrevia o futuro da economia mundial. Um dia, os mercados de todos os tipos de bens e serviços se tornariam integrados e os benefícios seriam visíveis.Os padrões de vida se elevariam em todos os lugares com a queda das barreiras ao comércio, à produção e ao capital. A meta era notável e foi parcialmente realizada. Mas recentemente encontrou um grande obstáculo no caminho. A globalização tem muitas conotações. Originalmente, significava facilidade de acesso internacional. As barreiras ao comércio e aos investimentos desapareceriam, e o fluxo internacional de bens e serviços aumentaria. O livre comércio e os mercados comuns foram criados para facilitar essa ideia. Um mundo sem barreiras ajudaria a distribuir a riqueza dos ricos para a população pobre de modo mais igualitário. Até hoje, apenas os serviços financeiros tiveram sucesso em se tornar verdadeiramente globais. Os mercados financeiros em rápida transformação, auxiliados por tecnologias rápidas como a luz, eliminaram as fronteiras nacionais em muitos casos, tornando muito fáceis os investimentos internacionais. As restrições governamentais foram eliminadas em quase todos os principais centros financeiros, e os estrangeiros foram estimulados a investir. Isso abriu um amplo panorama de possibilidades de investimento. Esse fenômeno não é novo. Desde a Segunda Guerra Mundial, muitos governos afrouxaram as restrições sobre suas moedas, e hoje o mercado de câmbio é o maior do mundo, o mercado com maior liquidez financeira e operações ininterruptas. E não há distinções por causa de peculiaridades ou restrições nacionais para as principais moedas. Se os governos permitirem que suas moedas sejam comercializadas livremente, como na maioria dos países desenvolvidos, então um dólar ou um euro podem ser comercializados em Hong Kong ou Tóquio com a mesma facilidade que em Dubai ou Nova York. Comércio transnacional Outros mercados financeiros seguiram esse precedente rapidamente. Os mercados de títulos do governo, os mercados de títulos privados e os mercados de ações começaram a desenvolver vínculos baseados em tecnologias novas e mais rápidas. Há 40 anos, Gordon Moore, um dos fundadores da gigante da informática Intel, fez seu famoso prognóstico (Lei de Moore), segundo o qual a capacidade dos microchips seria duplicada a cada dois anos. Os chips novos e mais rápidos tinham capacidade para acomodar um número cada vez maior de transações financeiras, e tal capacidade rapidamente gerou ainda mais transações. Logo os negociantes conseguiram cruzar mercados e fronteiras nacionais com uma facilidade que fez inveja a partidários da globalização em outros setores da economia. Durante o mesmo período, as montadoras estavam promovendo a ideia de um carro universal, porém sem o mesmo sucesso. Wall Street e os outros principais centros financeiros prosperaram. Os clientes conseguiam a execução de suas operações com ações com rapidez inimaginável em meados dos anos 1990. A NYSE (Bolsa de Valores de Nova York) e o Nasdaq (Sistema de Cotação Automatizada da Associação Nacional de Corretoras de Valores) abandonaram seus antigos métodos de cotação de preços das ações em frações e adotaram o sistema decimal. Os computadores não funcionavam bem com frações, e o método antigo não estimulava o comércio na velocidade da luz. Os clientes passaram a poder negociar usando o computador em vários dos principais mercados na mesma velocidade em que negociavam em seus próprios mercados. Nascia um verdadeiro comércio transnacional, com os serviços financeiros fazendo inveja a outros setores que há muito sonhavam com a globalização. Os resultados foram surpreendentes. O volume na NYSE aumentou de um recorde de 2 bilhões de ações em 2001 para um recorde de 8 bilhões em 2008. O volume diário nos mercados de câmbio estava na casa de um trilhão de dólares. Os diversos mercados de títulos emitiam mais de um trilhão em novos títulos anualmente, mais do que os bilhões registrados em anos recordes anteriores. O valor das fusões e aquisições também chegou à casa dos trilhões anuais. Os volumes e o apetite para as transações pareciam não ter fim. Um ciclo tradicional A economia americana tradicionalmente testemunhou longos períodos de prosperidade antes de desacelerar significativamente, o que geralmente ocasionava uma parada temporária por uma bolha de ativos que acabava esgotando seu ar quente. A situação se repetiu muitas vezes desde 1793, quando a primeira grande retração econômica foi registrada em Nova York. Problemas semelhantes foram registrados pelo menos oito vezes até 1929. Cada boom foi seguido de um colapso, alguns mais sérios que os outros. A depressão pós-1929 foi o prenúncio de extensas reformas do sistema bancário e dos mercados de títulos. Até 1929, essas recessões eram chamadas de “pânicos”. O termo “depressão” foi usado uma ou duas vezes no início do século 20, mas durante a década de 1930 o termo passou a ser associado exclusivamente àquela década. O ciclo tradicional ainda está em evidência. A recessão de 2001 seguiu o colapso das empresas ponto-com e muitos dos day traders que haviam empregado as novas tecnologias da computação passaram à posição de espectadores, como seus antepassados haviam feito no século 19. Seguiu-se uma recessão, diminuindo temporariamente o apetite dos ganhos especulativos. Os séculos 19 e 21 tinham mais em comum do que se podia imaginar. Após obter sua independência da Grã-Bretanha, os Estados Unidos haviam se tornado dependentes do capital estrangeiro durante os primeiros 120 anos de existência. Até a Primeira Guerra Mundial, grande parte da infraestrutura e da indústria americanas havia sido financiada com dinheiro do exterior, títulos, em sua maioria. Os americanos produziam a maioria dos bens e serviços de que precisavam, mas o capital era sempre pouco até a guerra mudar o contexto geopolítico. A situação permaneceu inalterada até o final da década de 1970, quando a posição foi novamente revertida. A taxa de poupança doméstica nos EUA declinou, e o capital estrangeiro afluiu ao país. Os títulos eram mais uma vez os favoritos, mas os mercados de ações também se beneficiaram substancialmente. Os consumidores, responsáveis por cerca de dois terços do produto interno bruto americano desde a década de 1920, compravam bens nacionais e importados, enquanto os estrangeiros forneciam o capital necessário para financiar o governo federal e muitos setores americanos. A situação persiste até hoje, com cerca de metade dos títulos do Tesouro americano em circulação nas mãos apenas do governo chinês.
O boom das hipotecas Após o colapso das empresas ponto-com e dos escândalos da Enron e da WorldCom, parecia que estava na hora de Wall Street dar uma pausa para tomar fôlego, devido à falta de novas ideias para alavancar uma nova bolha. Mas foi uma combinação de tendências cíclicas que reapareceram e, juntas, estimularam o maior boom de curto prazo jamais visto. A globalização, um influxo de capital estrangeiro e análises financeiras esotéricas uniram-se aos imóveis residenciais para produzir o mais explosivo — e potencialmente destrutivo — ciclo de boom/colapso já testemunhado na história americana. A recente bolha do mercado foi criada pelo boom dos imóveis residenciais. Normalmente, o mercado desses imóveis acompanha os booms nas bolsas, mas não os causa. No rastro do colapso das ponto-com e do trauma pós-11 de setembro, a situação se reverteu. As residências se tornaram o centro da atenção de muitos investidores. Muitas pessoas compraram seu primeiro imóvel, e muitos outras reivindicaram o refinanciamento de suas hipotecas. A novidade não passava na verdade de um fato velho elegantemente disfarçado pelas finanças modernas. Foi difícil detectar esse fenômeno em seus estágios iniciais. Todos os fatores que convergiram para produzi-lo já haviam sido vistos antes. Muitos deles eram métodos financeiros bem conhecidos e comprovados pelo tempo. A securitização havia sido usada por várias décadas pelas agências de financiamento de imóveis dos EUA para converter grupos de hipotecas residenciais em títulos adquiridos por investidores. Isso propiciou o surgimento de fundos ainda mais disponíveis para o mercado de imóveis em um momento de alta demanda após 2001. A novidade em Wall Street passou a ser o financiamento do “sonho americano” — a ideia de que todos deveriam ter sua casa própria. A demanda por títulos securitizados mostrou-se forte, tanto que as casas de títulos de Wall Street começaram a produzi-los cada vez mais depressa. Grande parte da demanda veio dos investidores estrangeiros — bancos centrais, bancos, fundos de riqueza soberana e empresas de seguros — todos seduzidos pelos rendimentos atraentes. Os dólares estavam sendo reciclados por esses investidores, especialmente bancos centrais e fundos de riqueza soberana, a partir dos saldos das contas correntes que estavam acumulando nos Estados Unidos. O dinheiro saía dos Estados Unidos quando os americanos adquiriam produtos importados de fabricantes estrangeiros e voltava para o país em forma de investimento. Vítimas do próprio sucesso O boom das hipotecas começou após 2001 e em alguns anos estava em pleno progresso. A demanda por títulos lastreados em hipotecas continuou forte e em seguida as hipotecas subprime, os swaps de inadimplência de crédito e outras garantias exóticas baseadas em derivativos tornaram-se parte das garantias de ativos. No final do terceiro trimestre de 2007, com o aumento das taxas de juros de curto prazo, antes em baixas históricas, essas garantias começaram a ruir, e o valor dos ativos começou a cair, gerando crise no setor bancário e de seguros em alguns meses. No passado, sem a tecnologia, os resultados teriam levado anos. O boom recebeu imensurável ajuda da desregulamentação dos mercados financeiros americanos em 1999, culminando oficialmente após duas décadas de afrouxamento gradual das regras outrora rigorosas. O novo ambiente financeiro criado permitiu que bancos e bancos de investimentos coabitassem, algo não permitido desde 1933. Quando começaram a compartilhar os benefícios da desregulamentação sob o mesmo teto, as ideias mais antigas de gestão de riscos começaram a ruir, em uma busca maior por lucros.
A crise dos mercados de crédito e de garantias marca o fim de um legado de quase 40 anos das agências federais de financiamento de imóveis e de todos os benefícios por elas proporcionados desde a aprovação da legislação social durante a década de 1960. Wall Street, os mercados de crédito e o setor imobiliário dos EUA foram vítimas do próprio sucesso quando os mercados entraram em colapso em 2008. A ganância, a falta de supervisão regulatória e a sofisticação das finanças estruturadas, que criaram muitos desses exóticos instrumentos financeiros, todos desempenharam seu papel no mais recente retrocesso dos mercados e da economia como um todo. O mais importante foi que a crise demonstrou as armadilhas da desregulamentação e da globalização. Infelizmente, o ceticismo adequado que deve acompanhar todo boom está em falta. A globalização ajudou a alavancar a crise e sem dúvida será empregada para ajudar a resolvê-la. A desregulamentação será posta de lado em favor de controles institucionais mais rigorosos sobre as instituições financeiras, a fim de prevenir fraudes e desonestidade. Foram necessários quase quatro anos após o crash do mercado de 1929 para a elaboração de uma estrutura regulatória destinada a separar tipos diferentes de bancos e estabelecer leis nacionais de valores mobiliários. A Lei de Moore sugere que isso vá acontecer mais rápido dessa vez. As forças que moldaram a globalização exigirão isso.
As opiniões expressas neste artigo não refletem necessariamente a posição nem as políticas do governo dos EUA. |
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