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Regulamentação Revisitada:
A Teoria do Equilíbrio de Mercado está Errada

George Soros

The Global Financial System

ÍNDICE
Sobre Esta Edição
O Fim do Capitalismo Americano? Mark Twain, Lake Wobegon e a Crise Atual
Os Estertores da Dívida
A Globalização e o Sistema Financeiro dos EUA
Box: Avanços na Economia
Cronologia das Bolhas de Ativos Financeiros
Regulamentação Revisitada: A Teoria do Equilíbrio de Mercado está Errada
Problemas Financeiros Globais: Causas, Curas, Respostas
O Sistema Financeiro Global em Transformação
Glossário
Recursos Adicionais
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A Chinese investor
Investidor chinês reage ao observar a exibição em tempo real do Índice Composto de Xangai em setembro de 2008
(© AP Images)

Embora a regulamentação internacional tenha de ser fortalecida para que o sistema financeiro global sobreviva, devemos estar também alertas para não irmos longe demais. Os mercados são imperfeitos, mas as regulamentações são ainda mais.

George Soros é presidente da Soros Fund Management e fundador do Instituto Sociedade Aberta. É autor de nove livros, inclusive, mais recentemente, O Novo Paradigma para os Mercados Financeiros: A Crise Atual e o Que Ela Significa.

Estamos no meio da pior crise financeira desde os anos 1930. O que chama a atenção na crise é que ela não foi causada por algum choque externo, como o aumento do preço do petróleo pela Organização dos Países Exportadores de Petróleo. Ela foi gerada pelo próprio sistema financeiro. Esse fato — um defeito inerente ao sistema — contradiz a teoria geralmente aceita de que os mercados financeiros tendem a se equilibrar e que os desvios do equilíbrio ocorrem tanto de forma aleatória quanto são causados por algum evento externo imprevisto ao qual os mercados têm dificuldade para se ajustar. A abordagem atual da regulamentação do mercado tem se baseado nessa teoria, mas a gravidade e a amplitude da crise são provas convincentes de que há alguma coisa fundamentalmente errada com ela.

Desenvolvi uma teoria alternativa que entende que os mercados financeiros não refletem as condições subjacentes com precisão. Eles fornecem um cenário que é sempre tendencioso ou distorcido de uma forma ou de outra. O que é mais importante, as visões distorcidas dos participantes do mercado e expressas nos preços de mercado podem, sob certas circunstâncias, afetar os assim chamados fundamentos que os preços de mercado deveriam refletir.

Chamo isso de conexão circular de duas vias entre os preços de mercado e a “reflexividade” da realidade subjacente. Afirmo que os mercados financeiros são sempre reflexivos, e às vezes podem se afastar bem rapidamente do assim chamado equilíbrio. Em outras palavras, os mercados financeiros são propensos a produzir bolhas.

As raízes da crise

A crise atual foi originada no mercado de hipotecas subprime. O estouro da bolha imobiliária nos EUA agiu como um detonador que fez explodir uma superbolha muito maior, que começou a se desenvolver nos anos 1980, quando o fundamentalismo do mercado tornou-se o credo dominante. Esse credo levou a desregulamentação, globalização e inovações financeiras com base na falsa suposição de que os mercados tendem ao equilíbrio.

O castelo de cartas agora desmoronou. Com a falência do Lehman Brothers em setembro de 2008, o inconcebível aconteceu. O sistema financeiro teve uma parada cardíaca. E foi imediatamente colocado em respiração artificial: as autoridades do mundo desenvolvido garantiram que não permitiriam que nenhuma outra instituição importante falisse.

New York's Times Square
Notícias sobre finanças são exibidas em painéis eletrônicos na Times Square em Nova York, em setembro de 2008 (© AP Images)

Mas os países da periferia do sistema financeiro global não puderam fornecer garantias tão confiáveis. Isso precipitou a fuga de capital de países do Leste Europeu, da Ásia e da América Latina. Todas as moedas caíram em relação ao dólar e ao iene. Os preços das commodities caíram como pedra, e as taxas de juros dispararam nos mercados emergentes.

A corrida para salvar o sistema financeiro internacional ainda está em curso. Ainda que seja bem-sucedida, consumidores, investidores e empresas estão passando por uma experiência traumática, cujo impacto total ainda não foi sentido. Uma recessão profunda é inevitável, e a possibilidade de uma depressão não pode ser descartada.

Contrabalançando os mercados

Então, o que deve ser feito?

Devido à propensão dos mercados financeiros para criar bolhas de ativos, os órgãos reguladores devem aceitar a responsabilidade de evitar que cresçam de forma desmedida. Até agora, as autoridades financeiras rejeitaram explicitamente essa responsabilidade.

Claro que é impossível evitar a formação de bolhas, mas deveria ser possível mantê-las dentro de limites toleráveis. Isso não pode ser feito simplesmente pelo controle da base monetária.

Os órgãos reguladores precisam considerar também as condições de crédito, porque dinheiro e crédito não andam em compasso. Os mercados têm humores e propensões que precisam ser contrabalançados. Para controlar o crédito de forma diferente do dinheiro, outras ferramentas devem ser empregadas — ou, mais precisamente, reativadas, uma vez que já foram usadas nos anos 1950 e 1960. Eu me refiro às exigências de margens variáveis e de capital mínimo dos bancos.

A sofisticada engenharia financeira atual pode tornar o cálculo das exigências de margem e de capital extremamente difícil, se não impossível. Portanto, novos produtos financeiros devem ser registrados e aprovados pelas autoridades competentes, antes de serem vendidos.

merchandise
Devido à diminuição da demanda por produtos exportados, os chineses lançaram um pacote de estímulo ao aumento do consumo interno de mercadorias (© AP Images)

Contrabalançar o humor do mercado exige bom senso, e como os responsáveis pela regulamentação são humanos, podem se enganar. Eles têm a vantagem, no entanto, de receber a reação do mercado, o que deve lhes dar a chance de corrigir seus erros. Se a intensificação das exigências de margem e de capital mínimo não esvaziarem a bolhas, os órgãos reguladores podem apertar um pouco mais. Mas o processo não é infalível, porque os mercados também podem estar errados. A busca do equilíbrio ideal é um processo de tentativa e erro sem fim.

O jogo de gato e rato entre os órgãos reguladores e os participantes do mercado já está em curso, mas sua verdadeira natureza ainda não foi reconhecida. Alan Greenspan, ex-presidente do Banco Federal Reserve dos EUA, era um mestre de manipulação com suas manifestações proféticas, mas em vez de reconhecer o que estava fazendo, ele fingia ser um mero observador passivo. É por isso que as bolhas de ativos puderam crescer tanto durante seu mandato.

O FMI: uma nova missão

Devido à globalização dos mercados financeiros, as regulamentações também devem ser internacionais em seu escopo. Na situação atual, o Fundo Monetário Internacional (FMI) tem uma nova missão: proteger os países periféricos contra os efeitos das tempestades que tiveram origem no centro, isto é, nos Estados Unidos

O consumidor americano não pode mais servir de motor para a economia mundial. Para evitar uma depressão global, outros países também devem estimular suas economias internas. Mas países periféricos sem grande superávit de exportação não estão em posição de empregar políticas contracíclicas. Cabe ao FMI encontrar formas de financiamento de déficits fiscais contracíclicos. Isso poderia ser feito em parte arrolando fundos de riqueza soberana e em parte pela emissão de Direitos Especiais de Saque para que os países ricos, capazes de financiar seus próprios déficits fiscais, possam ceder aos países mais pobres que não podem fazer o mesmo.

Embora a regulamentação internacional deva ser fortalecida para que o sistema financeiro global sobreviva, devemos estar alertas para não ir longe demais. Os mercados são imperfeitos, mas as regulamentações são ainda mais. Os responsáveis pela regulamentação não são apenas humanos; são também burocráticos e sujeitos a influências políticas. As regulamentações devem ser mantidas no mínimo necessário para assegurar a estabilidade.

O The Daily Star publica este comentário em colaboração com a Project Syndicate copyright © The Daily Star, 2008. Todos os direitos reservados.

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As opiniões expressas neste artigo não refletem necessariamente a posição nem as políticas do governo dos EUA.