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Uma Revolução Energética do Povo

Elisa Wood

Energy Efficiency: The First Fuel

ÍNDICE
Sobre Esta Edição
Eficiência Energética: Mais Fácil Falar do que Fazer
Virgínia Busca Inovações Energéticas no Exterior
Estimulando a Eficiência a Longo Prazo
Avanços em Eficiência Energética nos EUA em 2009
O Universo Cada Vez Maior do Energy Star
Geração de Blogues para Eficiência
Uma Revolução Energética do Povo
Vampiros em Casa
Promoção da Cidadania por meio de Eficiência Energética
Empresas Petrolíferas Aderem à Eficiência
Grandes Empresas Petrolíferas Rendem-se ao Verde
Recursos Adicionais
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Teacher and students work at computer (Oberlin College)
O professor John Petersen, de pé à esquerda, trabalha com seus alunos na medição do consumo de energia no campus, registrado pelo globo de energia, abaixo à direita (Cortesia: Kevin Reeves/Oberlin College)

As políticas governamentais só conseguem promover maior eficiência energética. As conquistas reais devem ser feitas pelos consumidores, uma de cada vez. A crescente conscientização contra o desperdício de energia tem estimulado os cidadãos a tomar várias medidas criativas em prol da eficiência em diferentes esferas da vida americana.

Elisa Wood é escritora especializada em questões energéticas radicada nos EUA. Seus artigos estão disponíveis em www.RealEnergyWriters.com.

Os altos custos, mais que qualquer outro fator, levam os consumidores a reduzir o consumo de energia. Então, como fazer para convencê-los a economizar quando não são eles que pagam a conta?

John Petersen, diretor do programa de estudos ambientais da Oberlin College, enfrentou esse dilema quando embarcou em um projeto para reduzir o consumo de eletricidade nos dormitórios da faculdade de Ohio. Ele achou a resposta em uma bola de cristal.

Petersen lançou um concurso para ver qual dormitório estudantil podia reduzir mais o consumo de energia. Inicialmente a faculdade ofereceu um site onde os estudantes podiam monitorar seu consumo de energia, analisando tabelas e gráficos coloridos. Mas Petersen percebeu que o enfoque era para fanáticos da computação e não para todos os estudantes. Então ele inventou o “globo de energia”, um objeto com cara de bola de cristal que brilha em diferentes cores para mostrar o consumo de energia no edifício a qualquer momento. Ele colocou os globos no saguão dos dormitórios. Com uma rápida olhada, os estudantes sabiam se seu dormitório estava consumindo muita energia quando a bola estava vermelha ou menos energia quando estava verde.

“Isso sem dúvida servia para puxar conversa”, disse. “As pessoas se reuniam em torno do globo e falavam sobre o assunto.” Mais ainda, os estudantes se empenharam seriamente em obter eficiência energética; os vencedores reduziram o consumo em mais de 50%.

“Os estudantes dos dormitórios vencedores fizeram coisas como desligar as máquinas de venda automática”, contou Petersen. “Os estudantes passam por essas máquinas todos os dias, provavelmente várias vezes por dia. Antes da competição, aposto que nenhum deles parava para pensar sobre o consumo parasitário de eletricidade dessas máquinas.”

Eles se conscientizaram de “que andavam em um mundo de aparelhos consumidores de energia,” observou. “É o que eu espero estar fazendo com isso — fazer com que as pessoas percebam o fluxo de recursos necessário para sustentar suas vidas.”

Ao fazê-lo, Petersen, um cientista ambiental, conscientiza cada vez mais os americanos de que a conservação é um ato de responsabilidade pessoal. Ao substituir luzes incandescentes, vedar janelas e instalar medidores inteligentes, os americanos conscientizados ajudam a alimentar o crescimento de US$ 1 trilhão na eficiência energética dos Estados Unidos, que gera mais de 8,6 milhões de empregos, de acordo com a Sociedade Americana de Energia Solar.

Com o estado de espírito certo

Para Sara Spoonheim, a eficiência energética vai além das realizações técnicas; é um ato espiritual. Spoonheim é vice-diretora da Faith in Place, organização que acredita em duas grandes responsabilidades comuns a todas as religiões: amar uns aos outros e zelar pela criação. Radicada em Chicago, Illinois, a organização ajuda congregações cristãs, judias, muçulmanas, hindus, budistas, sikhs, zoroastristas, baha’i, e unitaristas a melhorar seu uso de energia.

Man holds the device that allowed him to tap the excess energy produced by his Toyota Prius during a power outage
John Sweeney segura o aparelho que lhe permitiu aproveitar o excesso de energia produzido por seu Toyota Prius durante uma falta de energia (Cortesia: Lisa Aciukewicz/The Harvard Press)

Mantido por doações de fundações, grupos religiosos e pessoas físicas, o programa busca eficiência a baixo custo para congregações com poucos recursos. Para isso, Spoonheim ajudou a fundar uma loja virtual de alcance nacional, a ShopIPL.org [http://www.shopipl.org], onde as congregações podem adquirir produtos com eficiência energética mais baratos. A loja é patrocinada pela Interfaith Power & Light, organização interestadual filiada à Faith in Place que encoraja as comunidades religiosas a agir contra o aquecimento global.

O último projeto de Spoonheim na Faith in Place ajuda igrejas luteranas na sua tentativa de reduzir as emissões de carbono. Por meio de um programa chamado Cool Congregations, ela ajuda as congregações a substituir aparelhos que desperdiçam energia, instalar LEDs sinalizadores de saídas e levar adiante outras medidas para reduzir o consumo de energia. “Elas concordaram em ser cobaias, deixando que experimentemos com eles para poder descobrir quais são as necessidades das congregações em geral,” ela conta.

Locais de culto oferecem desafios únicos para a eficiência energética. Em primeiro lugar, um templo é usado em geral só uma vez por semana e pode ter instrumentos musicais que não podem ser expostos a temperatura e umidade extremas. Spoonheim concentra os esforços da eficiência energética nas partes do edifício usadas com frequência, tais como abrigos para moradores de rua, refeitórios e escolas, onde as medidas de eficiência têm maior impacto.

A Faith in Place vê esse trabalho como primordial para as iniciativas mais convencionais das organizações religiosas: fornecer alimento, roupa e abrigo. “Mesmo se fizermos todas essas coisas e amarmos os nossos irmãos e irmãs com todo o coração, isso poderá não significar nada se negligenciarmos as condições ecológicas do nosso belo e frágil planeta,” diz a organização.

O carro mantém a casa

Quando uma tempestade de neve deixou Harvard, Massachusetts, sem eletricidade por quatro dias em dezembro de 2008, o engenheiro elétrico John Sweeney criou um novo significado para o termo “independência energética”.

Enquanto os vizinhos se amontoavam nas casas frias, Sweeney e sua família permaneciam aquecidos devido à sua ideia de transformar seu carro híbrido num gerador doméstico de emergência.

Sweeney afirma que sua façanha não teve nada de extraordinário. Mas ele gosta de brincar com aparelhos elétricos, o que o leva de volta à época da faculdade nos anos 70, quando desenvolveu planos para um carro híbrido em seu projeto de conclusão de curso.

Hoje em dia, o local de férias de Sweeney é um veleiro com dois moinhos de vento que geram energia para grandes baterias responsáveis pelo funcionamento do refrigerador, das luzes, do computador e dos aparelhos de navegação do barco. Em casa, sobre o balcão da cozinha, há um medidor elétrico para toda a casa. Vários pequenos medidores de consumo de energia (“kill-a-watt”) avaliam o consumo de eletricidade dos aparelhos a cada hora. Observar o medidor levou a família a diminuir sua conta de eletricidade em US$ 50 por mês.

Assim, enquanto a neve derrubava quilômetros de linhas de transmissão elétrica na Nova Inglaterra, Sweeney começou a trabalhar. Ele percebeu que tinha uma solução “simples e barata” para a falta de energia logo ali, do lado de fora de sua casa.

Soube, por fóruns virtuais, que o carro Toyota Prius podia gerar mais voltagem que o necessário. Para usar o excesso de eletricidade, ele precisava de um transformador — e acontece que havia um no seu porão. Em seguida, conectou o transformador diretamente à bateria do carro e puxou um longo fio de extensão do carro até a casa. Depois ligou o refrigerador e o freezer, o ventilador do aquecedor, a televisão e várias luzes.

Por ser um modelo híbrido, o carro consumiu 18 litros de gasolina em quatro dias. Um carro convencional, ligado de maneira similar, usaria mais de 150 litros de gasolina.

“Esse uso para o carro parecerá normal dentro de cinco ou dez anos, quando tivermos à venda carros híbridos e carros totalmente elétricos com tomadas para o público em geral”, afirma Sweeney.

Woman selects light bulbs from store display (Alliance to Save Energy)
Cathy Clites, uma defensora comunitária da eficiência energética em Baton Rouge, Louisiana, compra lâmpadas de baixo consumo (Cortesia: Alliance to Save Energy)

Limitações de tempo não são desculpa

Cathy Clites se desculpa por esfregar o chão da cozinha enquanto responde à entrevista pelo telefone. Essa mãe e avó da Louisiana aproveita cada momento porque é arrimo de uma família de nove integrantes, que inclui seu marido Charlie, preso a uma cadeira de rodas e impedido de ganhar o sustento após sofrer um derrame cerebral há seis anos.

De alguma forma, entre cozinhar, lavar louça e a roupa e fazer as compras para a casa, Clites encontra tempo para ser defensora da eficiência energética. “Basta ser uma boa cidadã nos tempos atuais. É uma cortesia. Nós pensamos no que nossos filhos e netos irão encontrar”, explica.

Descobriu pela primeira vez a eficiência energética quando ganhou uma reforma na casa dentro dos padrões de energia eficiente como prêmio em um concurso promovido pelo canal de televisão SCI FI da NBC Universal e pela Aliança para Economia de Energia (ASE).

Ao ver os técnicos instalando os novos aparelhos, luminárias e vedação e depois ver sua conta de luz diminuir, Clites se entusiasmou com a eficiência energética e decidiu vender a idéia para outras pessoas. Segundo Clites, a ASE tornou-se “um representante popular da eficiência energética”, criando uma base permanente de apoio. Ela convence vizinhos, amigos, familiares e membros da igreja. Quando o prefeito de Baton Rouge criou o dia da eficiência energética para a cidade, Clites participou de uma coletiva de imprensa para conclamar o engajamento dos cidadãos na campanha. Ela levou os repórteres à sua casa para mostrar as reformas e arranjou tempo para desenhar marcadores de livros com conselhos para economizar energia, distribuindo-os aos interessados. À noite, quando os afazeres se acabam e a casa está quieta, ela perambula atenta para acabar com os “vampiros” — aparelhos e equipamentos elétricos que não estão sendo usados, mas que sugam eletricidade só porque estão ligados na tomada.

“No mundo de hoje, todos precisam economizar. Essa é uma maneira fácil de fazê-lo. Eu gostaria que outros tentassem — eles sentiriam como se tivessem ganho algo”, concluiu.

Fatos sobre eficiência

lightbulb illustration Consumo doméstico de energia elétrica nos EUA
Aquecimento 34%
Resfriamento 11%
Iluminação/eletrodomésticos 34%
Aquecimento de água 13%
Refrigeração 8%

Fonte: Departamento de Energia dos EUA (© Patrimonio Designs Limited)

Essas histórias — o globo de Oberlin, a missão espiritual da Faith in Place, a inventividade de Sweeney e o voluntarismo de Clites — são apenas alguns exemplos do árduo trabalho dos americanos que tentam reduzir o consumo de energia. Será que essa dedicação continuará? Alguns analistas acham que, se o preço da energia elétrica diminuir, os americanos vão esquecer a eficiência energética. Outros afirmam que o choque de preços foi tão grande nos últimos anos que a nação não vai retroceder. Além disso, os medidores avançados,os globos de Oberlin e outras medidas tecnológicas servem como motivadores.

“A revolução eletrônica que criou os computadores pessoais e a internet provavelmente também mudará a forma como nós geramos, armazenamos e usamos a energia”, escreveu Sweeney em artigo para o jornal local. “Por favor, apóie essas mudanças por meio do sistema político e estimule seus filhos a estudar ciências e engenharia. Este país precisa começar a pensar em inovações, e vamos precisar de todo o talento técnico que pudermos reunir para resolver as questões energéticas atuais de forma compatível com o meio ambiente.”

Energy Efficiency: The First Fuel

As opiniões expressas neste artigo não refletem necessariamente a posição nem as políticas do governo dos EUA.