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Questões Cruciais: Uma Viagem Internacional - Alemanha

Segurança por meio da Política Energética:
A Alemanha na Encruzilhada


R. Andreas Kraemer

Climate Change Perspectives

ÍNDICE
Sobre Esta Edição
Oportunidade Decisiva
O Desafio do Século 21
Visão Geral sobre Diversas Ameaças
Oh, Canadá: Como Poderia Ser Bom
A Visão de uma Ilha: Jamaica
Abordagem das Mudanças Climáticas mediante Desenvolvimento Sustentável
Segurança por meio da Política Energética: A Alemanha na Encruzilhada
A Posição Global da Índia sobre Mudança Climática
Redução da Pobreza com Corte das Emissões de Carbono
Estratégias para Contrabalançar as Ameaças à Economia Queniana relacionadas ao Clima
Bons Esforços Nacionais e Ameaça Subestimada
Juventude Internacional: Inquieta com a Mudança Climática
As Nações Unidas Estão Prontas para Enfrentar o Desafio?
Recursos Adicionais
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climate change perspectives
R. Andreas Kraemer (Cortesia: Instituto Ecológico)

R. Andreas Kraemer é diretor do Instituto Ecológico em Berlim, Alemanha, desde sua fundação em 1995. Versado em desenvolvimento sustentável e política ambiental, com mais de 20 anos na área, é professor do Programa de Berlim da Universidade de Duke em Durham, Carolina do Norte, e copresidente do conselho consultivo da OekoWorld para investimentos “verdes”. O Instituto Ecológico de Washington, DC, do qual é presidente, foi aberto em 2008.

A Alemanha tem sido líder no desenvolvimento de energias renováveis, estabelecendo ambiciosas políticas internas de proteção climática que incentivaram o crescimento de novas tecnologias e das profissões a elas relacionadas, que estão agora sendo exportadas para todo o mundo.

A maior preocupação na Alemanha não são os efeitos graves das mudanças climáticas em nível nacional, mas o fato de que os desenvolvimentos em todo o mundo poderão causar danos à estabilidade política em outros países, resultar em redução no comércio, induzir a migração e, enfim, causar conflitos. A promoção de boas políticas climáticas no exterior é considerada do maior interesse da Alemanha e boa prática de cidadania global.

No coração da Europa, tendo como vizinhos Estados-membros da União Europeia (UE), a Alemanha encontra-se em uma posição favorável geográfica e politicamente. Alguns países da UE, como a Bélgica, a Holanda, a Grã-Bretanha ou a Dinamarca, provavelmente sofrerão mais com o aumento nos níveis do mar, enquanto outros países em volta do Mediterrâneo sofrerão os efeitos mais fortes da mudança dos padrões de precipitação pluviométrica. A Alemanha tem um governo comparativamente forte, bem organizado e eficiente e pode responder às ameaças emergentes de maneira mais eficiente do que países com um Estado em condição mais limitada, especialmente os países em desenvolvimento não pertencentes à UE.

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A Alemanha investiu pesadamente na pesquisa e no desenvolvimento de energias renováveis. Cientista testando algas cultivadas em um projeto-piloto para a redução do dióxido de carbono para usinas de energia movidas a carvão na RWE Energy Company, em Bergheim, Alemanha (© Roberto Pfeil/AP Images)

A Alemanha é mais vulnerável aos efeitos da mudança climática ao longo da costa do Mar do Norte e do Mar Báltico, mas essas áreas não são densamente povoadas. No entanto, existem muitas habitações, empresas e infraestrutura de transporte ao longo dos rios. Sazonalmente, a baixa vazão já provoca o fechamento ocasional de usinas nucleares e outras instalações. Os registros recentes de inundações em todos os grandes rios são considerados consequência das mudanças climáticas, com uma atmosfera mais quente transportando mais água e ocasionando precipitações mais fortes de chuva ou neve. Com o tempo, uma evacuação parcial das áreas vulneráveis será necessária; entretanto, ainda não há nenhum senso de urgência.

Transformações

A promoção de eficiência energética e energias renováveis é a melhor maneira de buscar um futuro climático seguro para a Alemanha. Condutores de energia fóssil estão sendo descartados, e o mesmo poderá ocorrer com a energia nuclear.

A produção nacional de antracito extraído de minas profundas é onerosa e está sendo gradualmente extinta; o carvão macio, de extração superficial (linhito), permanecerá um combustível utilizado para a geração de energia por algum tempo, mas encontra-se politicamente na defensiva. Muito provavelmente, nenhuma nova usina movida a carvão será construída na Alemanha. A produção nacional de petróleo e gás é economicamente irrelevante, e a dependência de importações não só é dispendiosa, como traz ameaças à segurança do abastecimento. Os contratempos no fornecimento de gás da Rússia nos últimos invernos não afetaram a Alemanha diretamente, mas suscitaram dúvidas no que diz respeito à segurança do fornecimento, assim como as perspectivas para as novas democracias à sombra da Rússia.

Os impostos sobre a energia alemã aumentam os preços do combustível, do gás e da eletricidade, levando as famílias e as empresas a monitorarem o seu uso. Os fabricantes desenvolvem equipamentos industriais, eletrodomésticos e carros eficientes, ao passo que as regulamentações da construção civil promovem sistemas de isolamento e aquecimento/resfriamento eficientes. Programas de investimentos públicos, isenções fiscais e linhas de créditos exclusivas apoiam a conversão dos edifícios existentes e a cogeração eficiente de calor e energia.

Net metering e tarifas-prêmio (feed-in tariffs) apoiam os produtores de energia renovável e levam gradualmente a uma estrutura mais diversificada de geração de energia distribuída. A importante Lei Federal de Energias Renováveis estabelece tarifas-prêmio acima dos níveis de preço da rede de distribuição elétrica para apoiar as tecnologias de energias renováveis emergentes durante a fase inicial do desenvolvimento de mercado, principalmente no que diz respeito às energias solar e eólica. As tarifas, cujo propósito é proporcionar um ambiente econômico estável para investimentos em energias renováveis, do contrário muito arriscados, são reduzidas ao longo do tempo e não serão mais cobradas quando as energias renováveis alcançarem paridade na rede de distribuição elétrica e puderem sobreviver no mercado.

A Alemanha nunca se concentrou na fermentação de grãos para fabricar etanol como biocombustível, o que não é eficiente e provoca danos ao meio ambiente, mas abordou as bioenergias de forma mais ampla – inclusive o biodiesel, o biogás e pellets de madeira. A produção de biomassa e biogás armazenáveis e sua posterior conversão em energia e calor é hoje um campo particularmente dinâmico e promissor, atraindo tanto inovadores quanto investidores.

Como consequência dessas políticas, as energias renováveis perfazem hoje até 15,1% do consumo total de energia e 9,5% do consumo total de eletricidade (2008). A movimentação da indústria no último ano foi de 29 bilhões de euros (mais de US$ 40 bilhões), empregando cerca de 280 mil pessoas com níveis de qualificação variados.

Em 2008, o total de emissões de gases de efeito estufa diminuiu em 12 milhões de toneladas, ou 1,2%, em relação aos níveis de 2007. O total de emissões é hoje de 945 milhões de toneladas de CO2e (CO2 equivalente) e está dentro das metas da Alemanha no Protocolo de Kyoto, que permite as emissões alemãs durante o período de 2008 a 2012 em um nível 21% abaixo dos níveis de 1990. As emissões alemãs de 2008 estão 23,3% abaixo dos níveis de 1990, o que torna provável que a Alemanha atinja a meta.

A maior preocupação na Alemanha é (...) o fato de que os desenvolvimentos em todo o mundo poderão causar danos à estabilidade política em outros países, resultar em redução no comércio, induzir a migração e, enfim, causar conflitos.

Quando a Alemanha poderá suprir todas as necessidades de energia a partir de fontes renováveis? Uma pesquisa financiada pelo governo federal e um projeto de demonstração relacionam usinas de energia eólica e solar alternadas com usinas de energia movidas a biogás, energia hidrelétrica e armazenamento bombeado para formar uma “usina de energia renovável combinada” virtual (kombikraftwerk.de). Trinta e seis usinas conectadas em toda a Alemanha se mostraram capazes de seguir a curva de carga da rede de distribuição e fornecer uma proporção fixa da demanda de energia durante o ano.

As avaliações dos potenciais de energia renovável e ampliação industrial indicam que uma conversão completa para energia renovável poderá ser alcançada em 2050. Essa transformação seria completada ainda antes com o uso de tecnologia smart grid, resposta à demanda, uso de energia com carga variável, tarifas-prêmio e armazenamento de bateria em automóveis elétricos; o governo alemão pretende contar com 1 milhão de carros elétricos nas ruas em 2020. A eliminação gradual concomitante da energia a carvão e nuclear torna a transformação atraente em vista das mudanças climáticas e dos riscos de proliferação e do preço da política de segurança das tecnologias nucleares.

Fazer bem ao fazer o bem: exportando soluções

A Alemanha não esperou que outras nações arcassem com o ônus das mudanças climáticas para copiar as soluções que encontraram. Pelo contrário, desenvolveu políticas nacionais e trabalhou com seus parceiros na UE para formular respostas de abrangência continental aos desafios postos pelas mudanças climáticas. A Alemanha está envolvida com exportadores de energia, como a Rússia e muitos outros países, para diversificar suas fontes de energia, melhorar a segurança energética e compreender a necessidade de mitigar as emissões de gases de efeito estufa, preparar-se para o impacto inevitável das mudanças climáticas e caminhar rumo a sociedades sustentáveis e igualitárias.

Exemplos dessa abordagem incluem a liderança alemã na formação da Agência Internacional de Energia Renovável (Irena) e a Parceria de Ação Internacional do Carbono (Icap), promovendo a cooperação internacional para mercados de carbono eficientes. A Ponte Climática Transatlântica estabelece conexões bilaterais com os Estados Unidos e o Canadá. Uma parcela significativa da cooperação alemã com países em desenvolvimento e economias emergentes diz respeito a soluções climáticas e ao acesso a fornecimentos de energia sustentável.

Essa atitude proativa não é nova. Ela remonta aos primórdios da UE nos anos 1950 e, mais especificamente, às crises do petróleo nos anos 1970 e início dos anos 1980. Desde o estabelecimento de um ministério federal do meio ambiente pleno em 1986, as políticas alemãs para o meio ambiente, o clima e a energia foram marcadas pela continuidade e coerência em todas as linhas partidárias e mudanças no governo. A Alemanha criou e garantiu negócios e empregos e forneceu soluções para os outros adaptarem e adotarem ao estabelecer políticas eficientes no país, desenvolver novas tecnologias e serviços, deixá-las amadurecer nos mercados interno e europeu e vendê-las para outras nações.

Para mais informações, veja www.ecologic-institute.eu;

www.ecologic-institute.us.

As opiniões expressas neste artigo não refletem necessariamente a posição nem as políticas do governo dos EUA.